Aqui, eu falo mal na cara mesmo

Uma das características mais marcantes da nossa espécie é a curiosidade. Ela é, basicamente, nosso interesse em novas informações. A categoria da informação varia muito, mas tenho percebido que é tendência global (e olha que aqui acabei conhecendo gente de TODO lugar do mundo mesmo…) o gosto por falar mal dos outros. Alguns consideram esse ato altamente desprezível; eu, que passo longe de moralista, vejo como um comportamento natural, que deve continuar pelo menos até passarmos dessa para uma melhor, pelo menos até a Singularidade Tecnológica. Eu me permito essa indulgência. Eu gosto de falar mal dos outros. Faço isso até para manter uma certa congruência: estou constantemente me criticando, diariamente usando meu eu interior para falar mal do Aléx (ou seria Álex?).

Meus avós maternos não são brasileiros. Cresci ouvindo menos coisas do que escutava. É claro que não sou idiota e entendia que, quando eles usavam russo, é porque queriam falar sobre algo ou alguém (mais provável) sem que o restante das pessoas entendesse. Mesmo assim, sempre achei isso meio bobo e, de certa forma, falta de educação.

A gente cresce, e aparece. Ou melhor, desaparece. Que vá para o espaço a boa maneira. Falar mal dos outros, pelas costas, em língua que todo mundo entende é para amadores. Saber um idioma que a grande parte de um grupo não compartilha, ah, isso sim é mágico; é de fazer cair o queixo, é acessar uma quarta dimensão. Para quem gosta de humor negro e para quem adora brincar com as palavras, é um pecado irresistível. Não tem jeito, algumas piadas tem prazo de validade curtíssimo; algumas zoações só funcionam quando o outro pode só escutar, quando o outro não – e vamos torcer para esse não virar nunca – terá acesso à tradução.

Da experiência aqui nos EUA, uma coisa é certa: o Português falou mal dos quatro cantos do mundo. E o Álex, ah, tenham certeza que ficou com a orelha ardendo em, pelo menos, Bahasa, Urdu, Árabe, Turco e Coreano!

Café e Sacanagem

Café, porque essa foi a única maneira de suportar as últimas semanas. Diabos, como elas foram corridas! Sou bom em me concentrar em uma tarefa específica, mas ter centenas de obrigações diferentes ao mesmo tempo é algo que me estressa muito. Com o programa chegando ao fim, as demandas da bolsa e do college recebem o reforço das horas de trabalho voluntário (ainda faltam 28 para eu fazer!) e do estágio (estou fazendo aqui na prefeitura de Champaign, no departamento de TI; o trabalho é bem simples, mas é interessante ver o funcionamento do governo americano tão de perto).

Café, porque essa semana deixei de dormir – por causa do café que bebi e para escrever sobre o café na cultura brasileira. Eu e o Fábio Andrade estamos fazendo uma aula de redação esse semestre e, para a última quarta-feira, tivemos que escrever uma redação de mais de 1000 palavras sobre alguma planta importante na nossa cultura. Foi cansativo, mas aprendi bastante sobre a história do café e descobri a sacanagem que foi o contrabando das primeiras sementes da planta para o nosso país.

A sacanagem não foi minha, mas sim obra do Francisco de Melho Palheta. Abaixo, trecho traduzido (por mim) do excelente livro Uncommon Grounds: The History of Coffee and How it Transformed Our World (Diferentes Solos: A história do café e como ele transformou nosso mundo [tradução minha]) de Mark Pendergrast:

Então, em 1727, um mini-drama levou à fatídica introdução do café no Brasil. Para resolver um conflito fronteiriço, os governantes da França e da Guiana Holandesa pediram a um oficial Português-Brasileiro neutro, chamado Francisco de Melho Plalheta, que julgasse a disputa. Ele rapidamente concordou, esperando conseguir de alguma maneira contrabandear sementes de café, já que nenhum dos governantes iria autorizar a exportação das sementes para o Brasil. O mediador negociou com sucesso uma solução harmônica secretamente levou para a cama a esposa do governante francês. Durante a despedida de Palheta, ela o presenteou com um buquê, que tinha frutos maduros de café disfarçados em seu interior. Palheta plantou as sementes em seu território natal do Pará, de onde o café gradualmente foi se difundindo para o sul.

Pequena xícara de café

 

 

Salve Francisco de Melho Palheta!

 

 

 

Quando li isso – as 4 da manhã – só pude sorrir e entender a passagem como nenhum americano conseguiria. Eu sei que as coisas no Brasil são assim e – pelo jeito – desde o começo. O que Palheta fez foi imoral. Mesmo assim, foi uma jogada de gênio. Tenho que confessar que bateu uma admiração em mim por esse português filho da mãe… Trouxe a planta que moldaria o futuro do nosso país e ainda traçou a mulher do Francês. Imoral, mas gênio.

Para aqueles que tiverem um bom inglês – e quiserem saber mais sobre café – vocês podem acessar o texto que escrevi clicando aqui.

Quando tomarem o próximo cafézinho, não se esqueçam de saudar o Palheta!

Até breve!

Loucuras no Bus Terminal

Manhã de Domingo… Ah, doce manhã de Domingo! Para o café da manhã, nada melhor do que um bom copo de sabão em pó… “Ahn?! Sabão em pó?!”, vocês perguntam. Eu, tranquilamente, volto a responder: “Sim, sabão em pó”. Esse diálogo realmente não faz sentido algum, exceto se você vive no Atrium Apartments neste exato momento. Explico. Já há algumas semanas, o Fábio (o brasileiro do Sul) vem comentando comigo que o detergente havia acabado no two-one-one. Como ele não come lá (sempre comemos juntos no meu apartamento, que é limpo), ele resolveu não esquentar a cabeça. Há alguns dias, ele veio me contar a solução genial dos caras: começaram a usar sabão em pó para fingir lavar a louça! Sério, só acreditei porque já sei no que pode resultar a estupidez criatividade de vários países juntos.

Bandeiras de diversos países no Atrium ApartmentsDiferentes culturas: estupidez criatividade potencializada!

Dando um tempo para as loucuras do Atrium, vamos ao causo que dá título a esse post. Sexta-feira, lá estava eu, esperando no Champaign Bus Terminal o 1N Yellow, em direção ao Walmart. Nisso, veio um homem de meia-idade, corcundo e gordo, falar comigo. Ele queria ajuda para acessar as músicas em seu celular. Até aí, tudo bem. O problema é que, enquanto eu explicava como tocar as músicas, ele não parava de mexer a cabeça, olhando de um lado para o outro. Depois, começou a me dizer, do nada, para que eu tomasse cuidado, porque a polícia estava vindo prender uma pessoa ali no Bus Terminal mesmo. Percebi que o cara era doidão e dei um perdido nele. 5 min depois, acreditem se quiserem, o Bus Terminal estava cheio de policiais! Perigo real? Não, nada de anormal estava acontecendo por ali. Minha conclusão é de que o maluco ligou para a polícia e falou horrores. Vai ver ele disse que o Osama estava no terminal, esperando o busão para comprar uns “suprimentos” no Walmart para a festa de Domingo =P

Foto do Terminal de Ônibus de Champaign

Champaign Bus Terminal: aqui as loucuras acontecem!