Fim

De volta ao Brasil, não há mais motivos para manter esse blog. Por isso, estou oficialmente pondo fim a esse “diário de viagem”. Agradeço aos leitores que tive durante esse último ano e espero que meus posts tenham sido interessantes para vocês!

Vou manter o blog online como registro das minhas experiências e também como uma fonte de referências para estudantes que estejam prestes a passar por aventuras semelhantes.

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Arte, enfim

O ano aqui nos EUA foi muito importante para que eu passasse a me entender melhor. Isso inclui, sem dúvida, uma melhor compreensão de como funciona a minha mente (falando, é claro, no sentido conotativo; não entendo nada de neurologia). Decidi explorar esse entendimento de uma maneira mais artística dessa vez. Segue um de meus primeiros trabalhos com prosa poética, estilo que quero explorar mais no futuro.

Peças e mais peças de dominó enfileiradas

Minha mente é peças e mais peças de dominó enfileiradas, todas prontas para um efeito dominó. Cada fileira, um assunto. Tem a fileira do dinheiro; tem a fileira do amor. Do mundo, levo petelecos. Cada uma dessas pequenas pancadas, dependendo do lugar em que acertam e da força que tem, fazem uma das fileiras começar a andar. Minha mente não é sala pequena, mas também não é infinita. Como são muitas as peças e as fileiras, uma que desaba pode acabar levando outra junto. Não me pergunte por quanto tempo me interessarei por isso, quanto tempo farei aquilo. Me pergunte se meu fôlego vai ser o suficiente para acompanhar a corrida dessa ou daquela fileira de peças de dominó; se eu estiver correndo como maratonista, me pergunte se já vejo a última das peças. Não sou um triatleta ironman, então tenha certeza de que vou parar sim. E, enquanto aproveito sombra e água fresca, é inevitável que algumas das fileiras corram para muito longe, se percam de vista, sejam abandonadas. Meu break logo acaba e outro peteleco de repente causa o tal efeito dominó em uma das fileiras de peças de dominó. Descansado, refrescado, levanto e estico as pernas, porque até o final, afinal, a corrida continua.

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Até a próxima!

Aqui, eu falo mal na cara mesmo

Uma das características mais marcantes da nossa espécie é a curiosidade. Ela é, basicamente, nosso interesse em novas informações. A categoria da informação varia muito, mas tenho percebido que é tendência global (e olha que aqui acabei conhecendo gente de TODO lugar do mundo mesmo…) o gosto por falar mal dos outros. Alguns consideram esse ato altamente desprezível; eu, que passo longe de moralista, vejo como um comportamento natural, que deve continuar pelo menos até passarmos dessa para uma melhor, pelo menos até a Singularidade Tecnológica. Eu me permito essa indulgência. Eu gosto de falar mal dos outros. Faço isso até para manter uma certa congruência: estou constantemente me criticando, diariamente usando meu eu interior para falar mal do Aléx (ou seria Álex?).

Meus avós maternos não são brasileiros. Cresci ouvindo menos coisas do que escutava. É claro que não sou idiota e entendia que, quando eles usavam russo, é porque queriam falar sobre algo ou alguém (mais provável) sem que o restante das pessoas entendesse. Mesmo assim, sempre achei isso meio bobo e, de certa forma, falta de educação.

A gente cresce, e aparece. Ou melhor, desaparece. Que vá para o espaço a boa maneira. Falar mal dos outros, pelas costas, em língua que todo mundo entende é para amadores. Saber um idioma que a grande parte de um grupo não compartilha, ah, isso sim é mágico; é de fazer cair o queixo, é acessar uma quarta dimensão. Para quem gosta de humor negro e para quem adora brincar com as palavras, é um pecado irresistível. Não tem jeito, algumas piadas tem prazo de validade curtíssimo; algumas zoações só funcionam quando o outro pode só escutar, quando o outro não – e vamos torcer para esse não virar nunca – terá acesso à tradução.

Da experiência aqui nos EUA, uma coisa é certa: o Português falou mal dos quatro cantos do mundo. E o Álex, ah, tenham certeza que ficou com a orelha ardendo em, pelo menos, Bahasa, Urdu, Árabe, Turco e Coreano!

Café e Sacanagem

Café, porque essa foi a única maneira de suportar as últimas semanas. Diabos, como elas foram corridas! Sou bom em me concentrar em uma tarefa específica, mas ter centenas de obrigações diferentes ao mesmo tempo é algo que me estressa muito. Com o programa chegando ao fim, as demandas da bolsa e do college recebem o reforço das horas de trabalho voluntário (ainda faltam 28 para eu fazer!) e do estágio (estou fazendo aqui na prefeitura de Champaign, no departamento de TI; o trabalho é bem simples, mas é interessante ver o funcionamento do governo americano tão de perto).

Café, porque essa semana deixei de dormir – por causa do café que bebi e para escrever sobre o café na cultura brasileira. Eu e o Fábio Andrade estamos fazendo uma aula de redação esse semestre e, para a última quarta-feira, tivemos que escrever uma redação de mais de 1000 palavras sobre alguma planta importante na nossa cultura. Foi cansativo, mas aprendi bastante sobre a história do café e descobri a sacanagem que foi o contrabando das primeiras sementes da planta para o nosso país.

A sacanagem não foi minha, mas sim obra do Francisco de Melho Palheta. Abaixo, trecho traduzido (por mim) do excelente livro Uncommon Grounds: The History of Coffee and How it Transformed Our World (Diferentes Solos: A história do café e como ele transformou nosso mundo [tradução minha]) de Mark Pendergrast:

Então, em 1727, um mini-drama levou à fatídica introdução do café no Brasil. Para resolver um conflito fronteiriço, os governantes da França e da Guiana Holandesa pediram a um oficial Português-Brasileiro neutro, chamado Francisco de Melho Plalheta, que julgasse a disputa. Ele rapidamente concordou, esperando conseguir de alguma maneira contrabandear sementes de café, já que nenhum dos governantes iria autorizar a exportação das sementes para o Brasil. O mediador negociou com sucesso uma solução harmônica secretamente levou para a cama a esposa do governante francês. Durante a despedida de Palheta, ela o presenteou com um buquê, que tinha frutos maduros de café disfarçados em seu interior. Palheta plantou as sementes em seu território natal do Pará, de onde o café gradualmente foi se difundindo para o sul.

Pequena xícara de café

 

 

Salve Francisco de Melho Palheta!

 

 

 

Quando li isso – as 4 da manhã – só pude sorrir e entender a passagem como nenhum americano conseguiria. Eu sei que as coisas no Brasil são assim e – pelo jeito – desde o começo. O que Palheta fez foi imoral. Mesmo assim, foi uma jogada de gênio. Tenho que confessar que bateu uma admiração em mim por esse português filho da mãe… Trouxe a planta que moldaria o futuro do nosso país e ainda traçou a mulher do Francês. Imoral, mas gênio.

Para aqueles que tiverem um bom inglês – e quiserem saber mais sobre café – vocês podem acessar o texto que escrevi clicando aqui.

Quando tomarem o próximo cafézinho, não se esqueçam de saudar o Palheta!

Até breve!

Brasil para o futuro? (Parte 2 – Final)

A primeira parte desse artigo teve vários comentários e até gerou certa polêmica no Facebook. Confesso que fiquei surpreendido: muito movimento para um blog que geralmente vive às moscas é apenas lido por um círculo pequeno de amigos e familiares.

Apesar do meu irmão sempre dizer que eu sou um babaca egocêntrico cara que valoriza demais o próprio ponto de vista, quem me conhece bem e me julga sem o efeito “implicância de irmãos” sabe que eu gosto de ouvir opiniões diferentes. Eu refleti sobre os comentários do Facebook e isso me fez perceber que era sim necessário tocar em mais alguns pontos para deixar essa análise válida para um grupo maior de pessoas. Isso será feito na conclusão. Agora, sem querer colocar a carroça na frente dos cavalos, vamos aos meus dois últimos pontos positivos de se viver aqui.

3. E você acha que São Paulo até que tem uma boa infra-estrutura?

Meu amigo, você não sabe de nada. Os americanos podem ser frios e indiferentes, mas eles sabem planejar e construir muito bem. Sei que alguns lugares mais pobres aqui dos EUA tem problemas, mas imagino que nada que chegue perto dos problemas infra-estruturais do Brasil. Os lugares que já tive a oportunidade de visitar (Atlanta, Champaign-Urbana, Springfield, Chicago, Orlando e St. Louis) tinham excelentes condições. Boas estradas, trânsito organizado dentro das cidades, ambientes internos com temperatura controlada (passo menos frio aqui do que passava na Terra do Caqui). Isso sem falar nos aeroportos. Sério, o “Aeroporto” Internacional de Guarulhos é piada.

4. Tá, eles realmente são individualistas; mas, quando precisam xingar, fazem isso em coro.

Uma situação recorrente no Brasil é alguém desrespeitar determinada norma social e ninguém falar nada (ou apenas um ou outro corajoso se manifestar). Quando eu morava em Viçosa, todo dia vários “espertinhos” furavam a fila do restaurante universitário. Ninguém falava nada; no máximo, um ou dois comunistas barbudos se manifestavam. Se você é um desses que gosta de furar fila (ou fazer merdas semelhantes outras pequenas infrações sociais), prepare-se para levar uma nabada coletiva na sua visita aos EUA.

Conclusão

Se você leu até aqui, fica bem claro que eu prefiro os EUA (e outros países desenvolvidos) ao Brasil. Se tiver a oportunidade no futuro, não pretendo continuar vivendo no Brasil. Tá, mas não fique todo animado não. Pode ser que você venha para cá (ou vá para outro país desenvolvido) e literalmente quebre a cara, meu amigo. Eu me dei bem aqui porque – apesar de procurar lutar um pouco contra isso – sou uma pessoa antisocial reservada. Eu gosto daqui porque eu não ligo para o fato de não ter nenhum amigo americano (por outro lado, tenho bons amigos internacionais). Se a sua personalidade faz você dar bastante importância para isso, é bem capaz que você vá ser muito mais feliz no Brasil mesmo.

M&M's preso na máquina!

 

 

É, cara… EUA não é o paraíso. Pode ser que justo o seu M&M’s fique preso na máquina!

 

 

Recursos

Se você quiser vir aqui para os EUA, recomendo fortemente que fique de olho no site da Fulbright Brasil. Eles sempre tem boas oportunidades. Quem sabe você não se qualifique para alguma das bolsas oferecidas?

Conseguir visto de trabalho ou de residência permanente aqui para os EUA está cada vez mais difícil. Segundo boatos da Dona Sonia (minha mãe), tem até caso de brasileiro com oferta de emprego garantida que não está conseguindo visto para vir trabalhar aqui! Tá, mas você ainda pode ir para outros lugares! Já pensou no Canadá? É um país fantástico que ainda precisa de pessoas inteligentes e dispostas.

Abraços e até a próxima =)

Brasil para o futuro? (Parte 1)

Mesmo antes de morar no exterior, eu já me fazia essa pergunta. Agora, ela me vem à mente quase diariamente.

O Brasil é um bom país para se viver. Se você tiver boas condições financeiras, consegue ter uma ótima qualidade de vida. Temos belezas naturais e pontos turísticos que são resultado de espetaculares obras de engenharia. É verdade, os brasileiros são simpáticos. Se você ama essa terra, eu realmente aconselho que viva por aí mesmo. Provavelmente, você vai se dar bem.

Por outro lado, se você vê o patriotismo como algo idiota de pouca importância e se considera uma pessoa adaptável, eu aconselho que deixe a Terra do Futebol e do Carnaval. Fazendo uma análise racional, fica bem claro que possivelmente alguém pode ter uma vida melhor em N países que não o Brasil. Como só conheço os EUA, vou colocar algumas vantagens importantes que já percebi. As duas primeiras vão nesse post; as duas últimas e uma conclusão (incluindo algumas dicas e recursos para quem se interessar em viajar / morar no exterior) vem em um próximo post na semana que vem.

Eu e Meu Irmão no Skydeck, em Chicago

 

 

 

Eu e meu irmão no Skydeck, em Chicago

 

 

 

 

1. Eles são honestos!

Aqui, a honestidade faz parte da cultura. Isso significa que é regra, não exceção. As implicações disso são vastas e profundas. Uma bem interessante é a grande redução da burocracia. Aqui nos EUA, as pessoas acreditam em você em primeiro lugar e não vão ficar exigindo documentos para qualquer coisinha que você queira fazer (ah… eu vou sentir muita falta disso quando votar para a Terra do Carnaval).

2. Os produtos custam o que valem!
Se você gosta de ser explorado e pagar R$ 69.700,00 reais no modelo de entrada do Honda Civic (só um exemplo, extenda para quase qualquer outro bem de consumo), o Brasil é para você. Agora, se você acha que um carro desses – por mais que seja um bom veículo – não vale tudo isso, você vai ficar animado em saber que aqui você compra ele por aproximandamente R$ 32.089,00 reais (inclui impostos; usei a cotação Real – Dólar Comercial de 19/Jan/2012). Falem o que quiserem, mas é muito boa a sensação de sentir o seu dinheiro tendo um valor justo.

Não percam a segunda parte na semana que vem! Mais algumas vantagens de se morar aqui nos EUA e alguns recursos para quem se interessa em viajar / morar no exterior. Até a próxima!